O APARELHO PSÍQUICO E O FUNCIONAMNETO DA MENTE HUMANA
Publicado por compendion em Abril 12, 2008
Introdução
Neste artigo pretendo discorrer a respeito do Aparelho Psíquico proposto por Freud para explicar a organização e funcionamento da mente humana, o qual, na sua segunda tópica (1923), ele divide em três instâncias: Id, Ego e superego. Caminharemos junto com Freud e sua psicanálise na maior parte do tempo, porém utilizarei alguns subsídios externos por motivo de comparação.
Homem: conflito, resistência e queda.
Para Freud os processos psiquicos são em sua mairoria inconscientes, a consciência não é mais que uma pequena porção de nossa vida psíquica total. Em sua teoria Freud demonstrou que o conteúdo da mente não se reduz ao consciente (voz secreta da alma, que aprova ou desaprova nossos atos), mas que pelo contrário a maior parte da vida psíquica se desenrola em nível inconsciênte, (in=negação+consciente). Ali se encontram principalmente idéias reprimidas, às quais é negado o acesso à consciência mas que tem grande influência na vida conscênte. Estas idéias reprimidas aparecem de forma disfarçada nos sonhos e nos sintomas neuróticos.
Os processos psíquicos inconscientes são dominados por nossas tendências sexuais. De acordo com Freud a criança desenvolve um intenso sentimento de amor pelo genitor do sexo oposto e grande hostilidade pelo do próprio sexo, a quem deseja eliminar como um rival. Esse conflito (complexo de Édipo) geralmente declina após a idade de 5 anos e reaparece com o advento da puberdade, sendo um dos fatores que contribuem para a crise da adolescência.
Para chegar a esta conclusão Freud notou que na maioria dos pacientes que tratou, suas neuroses, histerias e psicoses estavam relacionadas a sentimentos reprimidos com origem em experiências sexuais problemáticas.Com base nessas experiências não exitou em admitir que “as pertubações do erotismo têm maior importância entre as influências que levam à moléstia, tanto num como no outro sexo”3. A Psicanalise surge justamente com a intenção de explicar o funcionamento deste grande “buraco negro” que é a nossa inconsciência.
A partir destas verificações Freud percebeu que a mente do homem vive uma costante batalha, pois as questões de caráter sexual quase sempre se constituiam um grande tabu moral para a sociedade, em especial em sua época.
Aparelho Psíquico
Para explicar a organização da mente Freud à divide três instâncias funcionais: Id (ou Isso), Ego (ou Eu) e Superego o(ou Supereu), atribuindo a cada uma delas uma função especifica. Ao designar a mente humana desta maneira, Freud parece ter buscado inspiração na doutrina de Platão, o mito do Carro Alado apresenta bem o seu esquema: a fábula platônica conta que a alma humana é como uma parelha alada puxada por dois cavalos, um mau e disforme, correspondente a parte concupisciente da alma (em Freud este cavalo seria o Id que é a parte da mente que é regida pelo “princípio de prazer”, e tem a função de descarregar as tensões biológicas); o outro cavalo é bom, representa a parte racional da alma, porém as vezes sofre influências da parte do outro cavalo que é muito forte (no esquema freudiano este representa o Ego, ele lida com a estimulação da própria mente e também do mundo exterior, é constantimente fustigado pelo Id, mas é regido pelo “princípio de realidade”); encarregado de puxar a parelha esta o auriga, que seria a parte irascível da alma e lhe cabe auxiliar a parte racional –o cavalo bom- de tal forma que suas ordens sejam sempre obedecidas; (este é o Superego de Freud, e se comporta como um vigilante moral, porém ainda assim de forma inconciênte, faz a censura dos impulsos que a sociedade e a cultura próibem ao Id, impedindo o indíviduo de satisfazer plenamente seus instintos e desejos).
Conflito
Diante disso fica claro que tudo o que se narra na alegoria platônica quanto na teoria freudiana se constitui um grande conflito, seja na mente ou na alma (em Platão) do homem. Esta batalha mental é o grande tema -senão o único- da Psicanálise.
Este conflito persegue o homem desde sempre. Existem relatos de todos os gêneros literários que tratam sobre este assunto deveras tortuoso. Vejamos agora uma passagem bíblica que ilustra bem sobre este assunto, na qual o Apóstolo Paulo, parece ter vivido este conflito: “Realmente não consigo entender o que faço; pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto. (…) Na realidade, não sou mais eu que pratico a ação, mas o pecado que habita em mim. Eu sei que o bem não mora em mim, isto é, na minha carne. Pois o querer o bem está ao meu alcance, não, porém o praticá-lo. Com efeito, não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que ajo, e sim o pecado que habita em mim”.5 Santo Agostinho ira dizer: “Quem poderá negar que a vida humana sobre a terra seja uma tentação sem tréguas?” 6
Esta batalha interior que Paulo nomeia como pecado e Santo Agostinho nomeia como tentação, Freud a denominará como neurose. Todo homem é vitima deste conflito interno, entre impulsos instintivos e entre as instâncias (Id, Ego e Superego), e ao complexo edipiano que seria por sua vez, o início e principal fonte desse desconforto mental.
A palavra conflictu significa um embate entre pessoas que lutam…7 Ora, para que exista uma luta são necessários um atacante e um defensor. Pois bem, é isso mesmo que acontece no aparelho psíquico, onde o atacante é o Id, que investe poderosamente com um bombardeio de desejos e impulsos de toda ordem contra o Ego, o defensor, que resiste a estes ataques com um conjunto de manobras (mecanismos de defesa) que ele dispõe e utiliza para evitar ameaças a sua própria integridade. A organização desse sistema de defesa é o que entra em contato direto com a realidade externa e através de suas funções tem capacidade de atuar sobre este, em uma tentativa de adaptação e de paz com o inimigo, o Id. Porém nem sempre isso é possível, pois o Id é “esperto e traiçoeiro” e não esta interessado em paz, sua intenção é apenas a satisfação “por isso mesmo, como dizia Freud: os desejos inconscientes são ativos, indestrutíveis e imortais…estão sempre lá… No inconsciente nada acaba, nada passa, nada é esquecido”8.
Resistência
Neste momento de tortura mental e inconsciente, se faz necessário o Superego intervir em favor do Ego. O Superego é formado “durante a dissolução do complexo de Édipo, através de uma renuncia da criança à satisfação de seus desejos edipianos, da decorrente identificação com o Superego de seus pais e da interiorização da interdição do incesto. Posteriormente acrescido das exigências sociais e culturais (educação, religião, moralidade, etc.), o superego acabaria então se instaurando como juiz e dominador do mundo pulsional do Id” 9.
Assumindo então o papel de juiz e vigilante, forma uma espécie de autoconsciência moral; os atos do Superego incluem muitos elementos inconscientes que derivam do passado do indivíduo e que podem entrar em conflito com seus valores atuais, constituindo assim um conjunto de interdições e de deveres. Quando acontece de o Superego não conseguir mediar e conter a investida do Id contra o Ego, aparecem os distúrbios dos comportamentos, sentimentos ou idéias, que surgem como resultado, onde uma tendência instintiva do Id é reprimida pelo Ego dando lugar à formação de sintomas neuróticos – que na verdade são mecanismos de defesa.
Pois bem visualizemos agora a cena de uma luta livre onde geralmente no ringe de luta estão presentes: dois lutadores, um de bom caráter e um de mau caráter, juntamente com um juiz que é o mediador do embate. Em um esporte como este às regras não são muito claras -quase não existem, com exceção a golpes baixos, vale tudo-, apesar disso o lutador de bom caráter é um bom esportista e mantém uma certa postura moral, o outro por sua vez é completamente desleal e avança com todos os tipos de golpe baixo. O Juiz ao perceber a trapaça do mau esportista intervem. Acontece, porém, que o lutador (desonesto) em alguns combates avança até mesmo contra o arbitro e o atira para fora do ringue ficando assim livre para investir com toda brutalidade contra o bom lutador.
Queda
No Aparelho Psíquico quando o Superego não consegue mediar e conter a investida do Id, para com o Ego, aparecem os distúrbios dos comportamentos, sentimentos ou idéias, que surgem como resultado, onde uma tendência instintiva do Id supera a defesa do Ego e do Superego dando lugar a formação de sintomas neuróticos, que podem ser graves ou não. No mesmo esquema da alegoria citada acima: o bom lutador é o Ego, o mau o Id enquanto que a arbitragem fica por encargo do Superego, o juiz.
Quando o Superego sucumbe completamente frente à investida do Id, surge assim a Psicose, que é uma grave perturbação das funções psíquicas que se caracteriza principalmente com a perda do contato com a realidade, pela incapacidade de adaptação social, por perturbações da comunicação e ausência de consciência da doença. É o resultado do conflito entre o Ego e o mundo exterior trazido a tona pelo Id. Diante da frustração de fortes desejos infantis, o Ego nega a realidade externa e procura construir através do delírio um mundo interno e externo de acordo com as tendências do Id.
As suas teorias acerca do Aparelho Psíquico foram controversos, e continuam a ser muito debatidos ainda hoje , mas de qualquer maneira seus estudos foram e são de suma importância. Com todas estas ilustrações penso que foi possível mostrar um resumo do Aparelho Psíquico proposto por Freud, claro que o tema é extenso e passa por outros diversos conceitos que não foram abordados a altura neste momento.
Claudio Gomes™, estudante de Filosofia do Centro Universitário Assunção – UNIFAI
Referência Bibliográfica
1 AGOSTINHO. Confissões. 17. ed. São Paulo: Paulus, 2004.
2 SAFOUAN, Moustapha. Angustia-Sintoma-Inibição. 2. ed. Campinas: Papirus, 1989
3FREUD, Sigmund. Cinco lições de Psicanálise
4 PLATÃO, Fedro. São Paulo: Martin Claret, 2001
5 Rm. 8, 14-20.
6 Idem 1,
7FERNANDES, Francisco; LUFT, Celso Pedro; GUIMARÃES F. Marques. Dicionário Brasileiro Globo. 55. ed. São Paulo: Globo, 2001.
8 Idem 2.
9Grande Enciclopédia Larousse. São Paulo: Globo, 1988