O COMPORTAMENTO DO HOMEM E A PSICOLOGIA

12 abr

 

Introdução

 

Com base na definição de Psicologia como ciência que estuda o comportamento do homem e de outros animais, pretendo enfatizar este trabalho destacando a formação do indivíduo e suas relações com o próximo, a partir de sua infância enquanto ser comunitário. Vamos fazer uma pequena análise do crescimento e desenvolvimento infantil, e tentar descobrir porque “a criança é na verdade o pai do homem”1, por fim analisar a questão: “qual a diferença entre a resposta de um indivíduo a seu ambiente físico e sua resposta ao mesmo ambiente na presença de outro indivíduo?”2 Para a realização deste trabalho utilizarei algumas citações extraídas do livro Confissões, de santo Agostinho, -obra escrita provavelmente entre 397 e 398- e com isso perceber que o comportamento humano em sua estrutura não se modificou, apenas se atualiza às diferentes épocas do desenvolvimento humano.

 

Parte I

 

No livro I, Agostinho recorda os pecados cometidos na infância, e diz “Quem me poderá lembrar os pecados cometidos na infância (…) Qual era então o meu pecado? Seria talvez o de buscar avidamente, aos berros os seios de minha mãe?”3. Neste ponto do livro, Agostinho faz uma análise de sua infância, e obervando o comporamento de outras crianças chega à conclusão que “Se mostrasse hoje a mesma avidez, não pelo seio materno, é claro, mas pelos alimentos próprios da minha idade, seria justamente escarnecido e censurado”4.

 

Esta necessidade de caráter fisiológico que uma criança tem é devidamente tolerado pela mãe neste período de amamentação, e, em outras circunstâncias e em outra idade, reprimido e outrora tolerado. Ao observar uma criança em um supermercado gritando, chorando e rolando no chão tentando convencer a mãe a comprar determinada coisa, digamos um chocolate, fica fácil entender o que Agostinho quer dizer. Esta atitude “agressiva” e hoje em dia tão “normal” de uma criança, pode nos mostrar como vai ser a sua relação enquanto ser social. “O bebê recém-nascido desperta para a atividade através de suas necessidades corporais, as necessidades de ar, alimento, eliminação de restos de alimentos, uma temperatura agradável, sono. Todas essas necessidades são as raízes fisiológicas do que os psicólogos denominam motivação”5. Porém, quando estas motivações não são bem administradas pelos pais, a criança pode vir a ter problemas futuramente, “pois os motivos tornam-se complexos à medida que o indivíduo cresce” 6. E isto pode ser determinante para a formação de sua personalidade.

 

Em tempos de capitalismo, é observável que as crianças já nascem prontas para aderirem ao consumismo. E como o consumo tem mostrado não poder suprir as necessidades do homem, -pois as “coisas” nunca bastam aos anseios do indivíduo- a criança que tem este tipo de comportamento manipulador desde seus primeiros anos de vida certamente irá ter e causar problemas. A criança, ao chamar a atenção dos pais por desejar um chocolate, demonstra toda sua capacidade de manipulação. Diante disso, os pais têm duas opções: ignorar os espetáculos feitos pelo pequeno infante e estabelecer limites concretos para ele; ou se deixarem manipular e colaborarem para a sua má formação humana e social, mesmo sem se darem conta disso.

 

A uma criança que não se estabelece um limite razoável, quando adulta pode vir a ter problemas, pois “Alguns indivíduos conformam-se facilmente à sua cultura [ou classe social], outros revoltam-se; alguns desenvolvem bons hábitos de trabalho [ou estudo] e tem elevados motivos para sua realização, enquanto outros são mais indolentes; alguns são mais competitivos e agressivos, outros são mais modestos” 7. “O vocábulo fante quer dizer fala, que precedido da partícula negativa in significa aquele que não tem o poder da fala. Ou seja, o infante necessita de alguém que fale com ele e por ele, na tentativa de torna-lo partícipe desse mundo”8. Ao que parece isto esta ocorrendo de maneira invertida, ou seja, são os infantesque estão falando pelos pais e sendo os verdadeiros pais do homem.

 

Cabe à psicologia vir em auxílio dos pais e educadores e procurar encontrar meios que auxiliem na nova educação. Além do mais, muitos psicólogos aderiram ao mercado publicitário, e com isso ajudam a desenvolver campanhas que mexem negativamente no âmago do homem e acabam por colaborar diretamente com a mudança comportamental dos indivíduos (neste caso as crianças), mudança esta deveras negativa. Mas isto não é de se estranhar já que quase todas as ciências têm seu lado negativo, umas mais, outras menos, isto a história já mostrou.

 

Parte II

 

Partimos agora para o campo do relacionamento grupal, “no dizer da psicanalista Françoise Dolto (1994) a fase da adolescência é um delicado período de transição, em que o sujeito tem que matar simbolicamente a infância, juntamente com os heróis familiares que a suportaram e rumar para o desconhecido, negando valores sedimentados, buscando uma identidade própria e outras identificações; um processo permeado por conflitos, incertezas e ambivalências. Ou seja, o sujeito está aberto para o outro, mas, ao mesmo tempo, centrado em seus interesses particulares e problemas existenciais”9.

 

Este processo de transição do ambiente familiar, para o ambiente do mundo (entenda-se “mundo” como ambiente externo fora do convívio dos pais), constitui um verdadeiro choque existencial. O resultado dessa descoberta do mundo pode-se observar em atitudes de contestação de valores, de rebeldia contra os pais e professores e na diminuição do interesse pelo estudo. Este é o momento em que o adolescente se encontra bastante vulnerável às influências dos grupos de sua idade.

 

Agostinho conta em seu livro que “certa noite, depois de prolongados divertimentos pelas praças até altas horas, como de costume, fomos, jovens malvados que éramos, sacudir a arvore [uma pereira] para lhe roubarmos os frutos. Colhemos quantidade considerável, não para nos banquetearmos, se bem que provamos algumas, mas para joga-las aos porcos. Nosso prazer era apenas praticar o que era proibido”10.

 

Por que o proibido atrai tanto as crianças, os jovens e os adultos? Agostinho fala que existe uma lei inscrita em nossos corações que condena tudo o que é proibido, “nem mesmo um ladrão tolera ser roubado, ainda que seja rico e o outro cometa o furto obrigado pela miséria”11. Não há como negar que somos influenciados cotidianamente pelo que é proibido. Esta influência pode ser tanto interna, como externa.

 

O mito do carro alado, de Platão pode nos ajudar a entender esta influência interna “A alma se assemelha a um carro alado puxado por dois cavalos e guiado pelo auriga [a razão]. (…) os dois cavalos das almas dos homens são de raças diferentes: um é bom [irascível] e outro é mau [concupiscente]. Isso torna difícil a operação de guiá-los”12, por mais solitário que seja o adolescente ele vive este drama entre escolher o que é certo ou o que é errado (o anjo bom e o anjo mau a gritar em seu ouvido).

 

Por outro lado, no ambiente da rua ou da escola o adolescente se encontra, quando faz “parte de uma galera ou de uma gangue e passa a ser da hora, alimenta sua atitude de rebeldia [concupiscência] e seu desejo de liberdade. No mundo, o que ele busca é um espaço de pertencimento, onde possa se sentir ancorado para enfrentar o desafio comum à sua idade: afirmar-se perante o mundo e os outros que ai se encontram”13.

 

Agostinho indaga, “Quem pode compreender os pecados?”14. “Se eu tivesse na ocasião desejado de fato aqueles frutos que roubei, e com eles tivesse regalado, poderia tê-los roubado sozinho. Poderia ter cometido a iniqüidade, satisfazendo o meu desejo, sem a necessidade de estimular, por outras companhias, o prurido de minha cobiça [cavalo concupiscente, Platão]”15, um pouco adiante ele nos trás a resposta: “era uma vontade de rir que nos acariciava o coração ao pensar que estávamos enganando os que não esperavam de nós semelhante ato e muito o detestariam. Por que eu me divertia ainda mais por não praticá-lo sozinho? Talvez porque seja mais difícil rir sozinho? Sim é mais difícil. No entanto, acontece às vezes que rimos sozinhos, sem a presença de outros, se algo muito ridículo se apresenta aos nossos sentidos ou ao nosso pensamento.” e conclui, “Ah! Sozinho eu não teria praticado tal ação: absolutamente, não o faria!”16

 

Como acima descrito a criança necessita de alguém para guia-la, e ajudar na formação de seu caráter para a idade adulta, o homem é um ser que necessita do homem. Sozinho ele fica como que em um quarto escuro com medo e sem saber o que fazer fica completamente a mercê de suas ansiedades e desejos inconscientes. Com isso ele acaba encontrando respostas e coragem quando esta se relacionando em grupo, pois ele busca um espaço de pertencimento, não encontrou quem falasse por ele e agora desafia a todos e a si mesmo agindo de maneira desregrada.

 

A psicologia enquanto ciência do comportamento deve estar à disposição do homem para que, analisando seu passado através da história, propor novos caminhos para a sociedade. Não caminhos que ignorem sua origem, mas que venham ajudar a trazer à tona os valores de caráter primário da humanidade, através de métodos científicos que sejam razoáveis e éticos. De que vale o estudo da Psicologia se não for para ajudar o homem a ter mais confiança em seu futuro e a abordar com mais recursos às dificuldades que ele encontra cotidianamente.

 

A psicologia é extremamente filosófica, pois se interessa a cerca da questão das causas primeiras enquanto ciência do comportamento.

 

Claudio Gomes™, formado em Filosofia no Centro Universitário Assunção – UNIFAI

 

Bibliográfia

 

1 HILGARD, Hernest, R., ATKINSON, Ricrard C. Introdução à filosofia. São Paulo: Nacional. p. 3

 

2 Idem 1, p. 5

 

3 AGOSTINHO, S. Confissões. São Paulo: Paulus, 1984. p. 23-24

 

4 Idem 3, p. 24

 

5 HILGARD, Hernest, R., ATKINSON, Ricrard C. Introdução à filosofia. São Paulo: Nacional. p. 3

 

6 Idem 5, p. 3

 

7 Idem 5, p. 3-4

 

8 JUSTO, Carmem S.S. Os meninos fotógrafos e os educadores. São Paulo: Unesp, 2003. p.70

 

9 Idem 8, p.28

 

10 AGOSTINHO, S. Confissões. São Paulo: Paulus, 1984. p. 51

 

11 Idem 10

 

12 REALE, Giovanni. História da filosofia. 2. ed. 1v. São Paulo: Paulinas, 1990. P.160

 

13 JUSTO, Carmem S.S. Os meninos fotógrafos e os educadores. São Paulo: Unesp, 2003. p.29

 

14 AGOSTINHO, S. Confissões. São Paulo: Paulus, 1984. p. 57

 

15 Idem 14

 

16 Idem 14 p. 58


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2 Respostas to “O COMPORTAMENTO DO HOMEM E A PSICOLOGIA”

  1. bields84 agosto 12, 2010 at 8:37 pm #

    Belo blog sobre psicologia!

    Frequentarei aqui mais vezes!

    Esse post realmente tem a ver com o que eu procuro sobre psicologia! Texto perfeito! parabens!

    se quiser que eu publique algo de sua autoria, é só falar que eu coloco no meu blog com sua identificação e endereço do blog!

    da uma olhada no http://psicologiaparatodos.16mb.com

    abraços!

  2. theoramos outubro 16, 2011 at 1:39 pm #

    Excelente post, uma reflexão muito construtiva! Pretendo deixar disponível aos leitores de meu blog no meu próximo post, um link desse excelente post! Aguardo autorização do amigo que elaborou essa idéia, e resàlto que, sou um curioso, passo muito tempo observando e tentando compreender o comportamento social das pessoas!não tenho formação acadêmica para me aprofundar no assunto, mais gosto de elaborar pensamentos sobre o cotidiano! Mais uma vez, dou todos os méritos ao amigo, que tornou esse assunto interessante e de conteúdo excelente!parabéns e um abraço do amigo Theo Ramos!

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