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HABERMAS X RATZINGER

Publicado por compendion em Setembro 25, 2009

Em 19 de janeiro de 2004, ocorreu em Munique um diálogo “transcendente” entre Jürgen Habermas, um dos filósofos mais importantes de nosso tempo, e o então cardeal Joseph Ratzinger, na época, teólogo de cabeceira do então papa João Paulo II, a quem sucederia no ano de 2005 com o nome de Bento XVI.

O diálogo pôs frente a frente Habermas como representante da versão atualizada dos ideais da ilustração (Aufklãrung) e Ratzinger em sua condição de representante da versão mais recente do pensamento da igreja.

O diálogo foi “transcendente” porque aproximou duas grandes tradições que polemizaram na história do Ocidente desde os inícios da Idade Moderna: a tradição científica e a tradição cristã. Na ocasião Habermas falou primeiro e Ratzinger depois. O tema do encontro girou em torno das “bases morais pré-políticas de um Estado liberal” (SCHÜLLER, Florian. p. 17), ou seja, a busca de um fundamento comum para a sociedade global: religiosa e não religiosa, ocidental e não ocidental “voltado para a dignidade humana” (SCHÜLLER, p. 17).

Vários foram os fatores que corroboraram para este encontro. Nos chama a atenção a publicação de uma matéria pela revista MicroMega (2/2000) com a tese: “A filosofia se interessa cada vez mais não pelo conhecimento, e sim pela religião, e é sobretudo com esta que ela quer dialogar” (in SCHÜLLER, Florian. p. 10).

Quando se compara esse número da MicroMega com uma publicação sobre um tema semelhante que saiu na Alemanha em setembro de 2002, com o número 149 do Kursbuch, repara-se imediatamente nas diferentes características da situação intelectual. Sob o mote: “Deus esta morto e esta vivo”, é analisada, sem dúvida num nível elevado, a situação das religiões, desde os EUA ou Israel, passando pela Alemanha, até o islã e o hinduísmo. (SCHÜLLER, p. 11) 

HABERMAS

“A mim me parece óbvio que a ciência como tal não é capaz de produzir um etos, ou seja, uma consciência ética renovada não surgirá como fruto de debates científicos.” (Ratzinger)

Habermas pergunta se a democracia necessita de um fundamento pré-político, filosófico ou religioso, que a justifique. Habermas crê que não. Sua idéia é que, uma vez que os cidadãos se colocam de acordo em respaldar uma constituição que garantisse seus direitos humanos e políticos, atuariam como criadores de um novo Direito que se bastaria a si mesmo. A este consenso fundamental e a decisão de viver de acordo com ele, Habermas dá o nome de patriotismo constitucional.

Habermas não renuncia a tradição humanista e racional da modernidade. Porém, a novidade que expôs em Munique foi reconhecer na tradição religiosa um papel até então ignorado, ao dizer que as religiões já não devem ser pensadas como resíduos irracionais de um passado mágico, e sim como a inspiração pela qual os crentes podem aproximar-se ao consenso democrático com os não crentes.

Para muitos foi uma surpresa ouvir da boca do filósofo, que à maneira de Max Weber se declara “amúsico em matéria de religião”, o pedido urgente dirigido à sociedade secular para chegar a um novo entendimento a respeito das convicções religiosas, já que estas não podem ser encaradas simplesmente como resíduos de um passado terminado, constituindo-se antes num verdadeiro “desafio cognitivo” para a filosofia. (SCHÜLLER, p. 13)

E isto agora é possível porque Habermas, ao dar às crenças religiosas um papel que os ideais da  ilustração lhes negava, reconheceu que as idéias fundamentais da democracia, como a justiça e os direitos humanos, nasceram no seio das grandes religiões. Esta herança, oportunamente apropriada pelos não crentes, atrai a crentes e não crentes à concórdia democrática.

Habermas reconhece, também, que a crença democrática pode ter sua própria patologia, por exemplo, o individualismo exacerbado, para o qual necessita que a tradição religiosa lhe ponha limite, assim como a religião pode cair em sua própria patologia, por exemplo, o fanatismo contra o qual necessita dos limites que lhe oferece o espírito democrático.

Habermas propõe que o espírito religioso e o espírito secular aprendam juntos as regras da convivência universal, oferecendo-se um ao outro como remédios de suas respectivas patologias. 

RATZINGER 

“…pretendo propor que a secularização cultural e social seja entendida como um processo de aprendizagem dupla que obriga tanto as tradições do iluminismo quanto as doutrinas religiosas a refletirem sobre seus respectivos limites…” (Habermas)

Ratzinger assume com um fato de nosso tempo: que a religião encontra-se em um espaço universal mais além do espaço exclusivo que antes tinha, não podendo assim oferecer às demais culturas um princípio de aceitação universal.

O mundo de nossos dias vive, em suma, em um estado de fragmentação cultural. Ratzinger reconhece como um fato o multiculturalismo: que cada cultura apela a seus próprios fundamentos. Se quiséssemos converter-se ao “fato” do multiculturalismo no “direito” de cada cultura a pensar exclusivamente a sua maneira, cairíamos no relativismo cultural em meio do qual, tendo cada cultura “sua” verdade, desapareceria, assim, a busca esperançada da Verdade.

Ratzinger apela, então, a uma palavra que muda tudo. Em vez de falar de “multiculturalismo”, passou a falar em interculturalismo. Inversa ao multiculturalismo, o interculturalismo é a busca comum da verdade por parte das culturas. Enquanto o multiculturalismo separa, o interculturalismo conecta.

Ratzinger enumera as culturas que habitam nosso mundo. No Ocidente predominam duas culturas: científica e racionalista. A elas devem-se somar, já fora do Ocidente, as culturas islâmicas, hindu, budista e confucionista. Existe a oposição entre o judeu-cristianismo e o cientificismo. As posições entre o judaísmo e o cristianismo em suas diversas versões estão em caminho de ser superadas. Também o islã sofre a tensão entre sua ala fundamentalista e sua ala moderada. Por que não pensar, então, em um diálogo entre todas as culturas de nosso tempo, em busca de uma convergência que, sem anular a individualidade de cada uma delas, lhes permita desenhar os princípios universais de justiça e solidariedade da democracia?

Ao viajar em busca deste horizonte, Ratzinger, hoje Bento XVI, quer completar a obra de seu antecessor. João Paulo II se reconciliou com os “irmãos separados” das demais variações cristãs, com os “irmãos maiores” do judaísmo e até com os herdeiros de Galileu. De acordo com o que adiantou em Munique em 2004, Bento XVI buscará a reconciliação com o islã, com o hinduísmo, com o budismo e com o confucionismo.

Por isso é possível ver em seu diálogo com Habermas uma instancia decisiva em direção do ecumenismo. Como a palavra “economia”, do grego oikonomía, a palavra “ecumenismo” – oikouméne- provém da raiz grega oikos, que significa “casa”. Vindo de tradições distintas e até opostas, Habermas e Ratzinger atuaram em Munique como os adiantadores de uma nova tomada de consciência: que, qualquer que fosse nossa condição e nossa tradição cultural, os homens acabariam de mudar à mesma casa.

BIBLIOGRÁFIA 

SCHÜLLER, Florian (Org.). Dialética da secularização: sobre razão e religião. Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2007.

Dicionário etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1998.

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FILOSOFIA: UMA VISÃO MAIS INTEGRAL DO MUNDO

Publicado por compendion em Outubro 24, 2008

Ao tratarmos de Filosofia estamos tratando de conteúdos que só se esgotam no ser humano. E o ser humano é inesgotável. Ao contrário de toda Ciência, que impõe respeito, a Filosofia levanta suspeita, ela não permite juízos prévios.

Desde a Antiguidade, o ensino de Filosofia existe sob diversas formas e apesar de falar a linguagem do mundo, ela é acessível apenas aos que buscam as “verdades mais verdadeiras”. Sendo de fácil compreensão, a Filosofia abre-nos um campo infinito: o do pensamento dos homens e de tudo que existe no universo.

Para os leigos poderíamos dizer em palavras simples que os Filósofos falam em palavras complicadas o que poderiam falar de modo simples. Eles nos ajudam a entender melhor o mundo e a nós mesmos.

Filosofar é viver, e o uso de palavras complicadas se deve ao fato de que um Filósofo deve se aproximar o máximo da Verdade. E ele só pode fazê-lo através das palavras.

Mas a Filosofia não teria sentido se não participasse de nossa vida diária. E assim apresentamos uma Filosofia que pode nos auxiliar na compreensão de nós mesmos e da vida no planeta: a Filosofia Integral, que hoje nos traz uma visão de homem mais humano, mais voltado para seu auto- conhecimento e mais preocupado com o futuro do planeta.

O homem saiu das cavernas, passou pelas imagens, desbravou terrenos férteis e hoje finca sua morada em computadores que ligam o Oriente ao Ocidente. Evoluiu. A  Filosofia também. Assim, hoje podemos usufruir da Filosofia Clínica, que trata de angústias profundas, de problemas de ordem existencial de uma maneira natural, com técnicas que apenas aproximam “o homem de sua natureza humana, de sua essência”.

E ao encontrar a essência, encontramos Deus. Aí está o verdadeiro significado da Filosofia: um encontro consigo mesmo para vislumbrar o mais Divino e Humano em nós e na Natureza, ou em linguagem filosófica: “Um Eu, um Tu e um Nós”.

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Por Maria Aparecida Dionísio. Psicopedagoga.

Especializando-se em Filosofia Clínica,  pesquisadora da Psicologia Integral.

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QUEM É O HOMEM NA HISTÓRIA DOS SABERES?

Publicado por compendion em Abril 12, 2008

NASCIMENTO
Como falar sobre quem é o homem sem percorrer todo um período histórico, onde ele sempre esteve presente? Acreditamos que ele foi sempre ou quase sempre o protagonista da História, alias se somos capazes de voltar os olhos para o passado, isso se deve a ele, que esteve nos diversos períodos para fazer o registro histórico. Mesmo no período pré-socrático, quando a investigação científica, ainda que arcaica, voltava sua atenção para a physis, era o homem e somente ele que estava à frente das investigações
O período socrático marca a derrocada dos deuses míticos (ainda que não completa e, já iniciada com os pré-socráticos) e uma conversão dos pensamentos, onde o movimento sofístico opera “uma verdadeira revolução espiritual, deslocando o eixo da reflexão filosófica da physis e do cosmos para o homem e aquilo que concerne a vida do homem como membro de uma sociedade” . Este período identificamos: como o “período do nascimento”. E acreditamos não ser possível não identificar um paralelo entre esse período, e a idade do homem na História dos saberes. E como toda História tem um começo, a História do homem como ser que faz História, se inicia nesta época.
A mudança da reflexão filosófica da physis para o homem, a nosso ver marca o início da tentativa de descobrir: quem é o homem? É o seu nascimento, o seu descobrimento como agente ativo do cosmos que o circula, a máxima socrática “conhece-te a ti mesmo” pode ser identificada como um conselho ao homem de que, ele deve conhecer primeiro a si próprio para depois avançar no conhecimento daquilo que o cerca. Portanto, se o homem nasce, nasce para o saber, primeiro sobre si, depois sobre as coisas. Por isso Aristóteles vai dizer que “todos os homens, por natureza, desejam saber”
INFÂNCIA
Com o nascimento de Jesus Cristo, já anunciado cerca de 700 anos antes, ocorre uma mudança mais radical ainda, mudança esta que foi capaz até mesmo de modificar todo o calendário. A partir de agora a História será contada em duas épocas: antes de Cristo e depois de Cristo.
Jesus surge dizendo-se ser o filho de Deus, anunciando a boa nova da salvação com a vida eterna a todos os homens, sem exceção, bastando para isso que se convertam ao Pai. A partir de agora todos são seus irmãos, portanto, filhos do mesmo Pai, filhos de Deus. O homem tinha a partir desse momento, um Pai que os amava verdadeiramente.
Esta época identificamos como o “período da infância”, de fato é na infância que aprendemos a chamar pelo pai, talvez a figura mais marcante da história de todos os homens. A figura do pai nos da segurança, este é a coluna mestra de todas as casas, quem seria o homem sem um pai? Mas, muito mais que um pai, agora o homem tinha um Pai, criador do céu e da terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis.
A segurança desta revelação a aqueles que creram na boa nova, foi de tão grande efeito que passaríamos horas falando sobre os mártires e as perseguições que sofreram por causa de terem crido.
ADOLESCÊNCIA
Passado esse período adentramos na “adolescência”. Na Idade Média, o homem parece estar um pouco de lado novamente, pois o centro das questões esta voltada para Deus. A Igreja exerce um papel inegável de liderança em todos os âmbitos, da sacristia à monarquia. Juntamente com a terra, Deus é o centro do universo. O homem acata passivamente todos os mandamentos de Deus ministrados a partir da Igreja, ainda que esta em dados momentos, os tenha manipulado em proveito próprio. A alta Idade Média é identificada por alguns como “século das trevas da Igreja”
Se partirmos pelo critério de que o homem (talvez não nos dias de hoje) no período da adolescência realmente aceita todas as ordens do pai, em algumas raras exceções retruca um pouco, mas acaba aceitando o que o pai manda de cabeça baixa, identificaremos este período realmente como o da adolescência.
JUVENTUDE
Chegamos ao que podemos chamar de o “centro” da vida do homem, este agora se encontra na “juventude”. A juventude de fato parece ser o momento da alto-afirmação do homem, momento de se definir sobre o que ele pensa que é. Não vamos recorrer a pesquisas psicológicas, mas no senso comum, costumamos dizer que esta é a época em que os filhos costumam dar mais trabalho aos pais. Pois bem, na ocasião histórica referente a este período, o homem, buscando se auto-afirmar novamente, se coloca como o centro de tudo, o jovem homem agora é um rebelde.
Para corroborar com esta pretensão, a Idade Moderna, inicia-se com um grande golpe nas bases da Igreja e no pensamento do ser humano, o sistema heliocêntrico proposto por Copérnico parece dar um novo fôlego na História do homem. “O sistema copernicano tornou-se um dos mais vigorosos instrumentos do agnosticismo e ceticismo filosóficos que se desenvolveram no século XVI”4.
O homem agora em plena juventude de sua História, se esquece de seu Pai, os ensinamentos da Igreja começam a serem postos de lado, Deus não é o centro, o homem é o centro. É dado início ao período do racionalismo, todas as questões devem ser resolvidas com bases científicas e não teológicas. Como veremos a seguir, esta mudança apesar de ter trazido alguns avanços para a humanidade, também trouxe consigo grandes males nunca antes imaginados, pois, se os homens não têm um Pai em comum, conseqüentemente também não são irmãos entre si. As conseqüências disso foram tremendamente negativas.
IDADE ADULTA
O período da Idade Contemporânea, identificado por nós como a “Idade Adulta”, mostra até onde o homem pode ir, utilizando-se apenas da reflexão racional. De fato, neste período o homem foi capaz de mostrar toda a sua ferocidade, toda a capacidade de destruição e de autodestruição.
Na Primeira e Segunda Grande Guerra foram registrados números nunca antes imaginados de mortos, o continente europeu foi quase todo devastado, as bombas atiradas em Hiroshima e Nagasaki mostram o duro golpe do homem em si mesmo.
 Se a alta Idade Média costuma ser identificada como a “idade das trevas da Igreja”, por que não identificar a Idade Contemporânea como a “idade das trevas do homem”?
 VELHICE
Tendo atravessado todo um percurso histórico o homem se encontra agora na “velhice” ou “na idade da sabedoria ou da loucura”, este período é o hoje, o agora. Resta agora tentar responder: quem o homem hoje?
Decidimos abordar essa questão dessa maneira, porque entendemos que não é possível dizer quem é o homem de forma tão fácil, alias quem o diria? Todo esse percurso mostra claramente que o homem esta em constante mutação, ele não é, ele foi ou esta sendo. Com certeza seria mais fácil responder quem foi o homem em determinados períodos da história, mas, a questão: quem é o homem, parece pretender uma resposta precisa sobre o homem no seu período atual.
Ainda assim, será possível dizer quem é o homem hoje? No nosso sistema de reflexão, no seu hoje, ele esta na velhice, portanto, estaria prestes a morrer. Identificamos este período como “idade da sabedoria ou da loucura”.
Dizemos sabedoria porque é costume se dizer que a velhice é a idade da experiência, depois de ter vivido tantos anos um homem já em idade avançada, teria assimilado muitos conhecimentos e, portanto seria o portador destes. Mas, ainda dizemos também que, a velhice é o período da perda de consciência do homem, ou seja, a loucura.
Entendemos que o homem de hoje não esta tão diferente do homem da Idade Contemporânea, ele continua mostrando o que é capaz. Pensamos que o racionalismo exacerbado, de fato o enlouqueceu. Um filho capaz de se esquecer do Pai, vai lembrar de quem, a não ser de si mesmo? Hoje o homem vive a cultura do eu, cultura que não cria vínculos e pretende destruir os que restaram.
Temos medo de ao estarmos escrevendo esse artigo, sermos tachados de negativos de mais com relação ao homem. Mas, ele (o homem), nos dá outra opção? Claro que sim. O tempo não para, a História não acabou, o homem ainda tem um futuro pela frente, ele tem a chance de mudar o rumo da História mais uma vez. O Pai bondoso nos deu esse “poder” (Gn. 1,28-ss.), portanto, temos a chance de voltar os olhos para o bem e provarmos que não somos um animal irracional.
Quanto à resposta problematizada, entendemos realmente não ser possível dá-la, resta agora esperar mais um ciclo, e termos esperança de alguém poder narrar as maravilhas operadas pelo homem com relação ao homem, pois na História dos saberes não importa quem ele é, ou o que ele é, e sim o que ele faz.
Claudio Gomes™, estudante de Filosofia do Centro Universitário Assunção – UNIFAI

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